O que pode um corpo que pede? (1)


Em cena:

corpos despidos, revestidos de adereços e próteses
pedaços inteiros de corpos banhados de luz
espaço preto, vazio, ausente de contexto
cada imagem completa um fragmento de corpos povoados
um zoom amplia a tessitura da pele, suas escrituras
a atenção se detém nos rastros que vincam a embalagem perfeita do corpo, as fissuras
cada pedaço de corpo extrai da pele uma prata, precisamente preciosa
texto calcográfico modula os limites da pele, vestida de sinais tribais
em lugar de ninguém a prata na pele revela alguém

O que podem e o que pedem estes corpos?

Diante destas fotografias o que se trava é um campo triangular de batalha entre o fotógrafo, o modelo e todos nós. Ali instaura-se o contrabando de um olhar bumerangue que assina co-autorias. Somos cúmplices e testemunhas de corpos que pedem para ser um corpo, que podem ser um corpo que pede.

São imagens que desejam, exigem de nós a busca de algum lugar de onde possamos vê-las. Estamos diante de espelhos que refletem composições fotográficas, desenhando territórios minuciosamente construídos: o corpo é espaço modelável, a pele é topografia dos desejos.

Das fotografias de Gal Oppido exalam atitudes teatrais, que regem, com maestria construtiva, imagens de corpos que parecem não caber dentro das peles, contornando as zonas rarefeitas de nosso ser.

Entre o olho-diretor do fotógrafo que traça imagens de um corpo coletivo e os fragmentos de corpos singularizados pela marca que diferencia; entre o corpo de cada sujeito que modela sua intimidade vertiginosamente pública e a exposição compartilhada dos humores anônimos: é nesta zona difusa que possibilidades de corpos pedem para ser, em suas substâncias, pura exterioridade.

Gal Oppido captura corpos híbridos que posam para nossos imaginários. São procedimentos que lembram, de relance, os pintores de natureza morta que escolhem objetos extraídos de seu contexto habitual, compondo-os de modo articulado e configurando o motivo da imagem pictórica. A natureza morta dos corpos ainda vivos/still life de Gal Oppido emprestam uma tonalidade pictórica às fotografias aqui expostas, em cujo motivo tão prontamente nos reconhecemos – os nossos corpos, sempre os mesmos e sempre os outros - incitando uma turbulência perceptiva.
O fluxo do olhar que vai tateando as imagens, que vai esculpindo os corpos que emergem dos escuros, que vai modulando os objetos de prata na pele banhada de luz, registra um arco teso entre o desejo de aproximação e a repulsa, entre o toque e a recusa.

São imagens que, por vezes, nos constrangem, como se nos fosse dado ver a beleza terrífica de um corpo exposto em seus fragmentos, em seus resíduos ornamentados. Ou, quem sabe, como se nos fosse dado ver a terrível beleza dos limites do corpo que se surpreende.

“O homem é um deus que caga” (2). Foi exatamente com estas palavras que Gal Oppido iniciou nossa conversa sobre o trabalho. Pois estes corpos, quase deuses quase bichos, se travestem em figuras mitológicas, épicas, desbravando situações inusitadas, arrancadas de suas próprias cartografias corporais. São corpos fortes, roliços, musculosos, carnudos, jovens, heróicos, porém estranhos. Esta estranheza nos remete, num outro relance, às figuras bizarras desenhadas por vários artistas de épocas distintas como vemos em Da Vinci, Goya, Dürer, Bacon, chegando até as mais recentes experiências estéticas (body art e happenings, como exemplos) vividas por artistas como Orlan, Elisabete Mileu e outros. Todas estas figuras são aparições atávicas, sempre presentes, não nos fazendo esquecer nossos parentescos e heranças .

A escolha de corpos com órgãos, de certa maneira, compõe uma frequência elétrica com a idéia de leveza e rapidez, tão usual em nosso repertório neurológico contemporâneo. Estes são corpos pesados, densos e lentos, porém urgentes. São corpos que ocupam quase a extensão toda do campo, provocando um olhar espesso que sobrevive à película da imagem fotográfica.

Em posturas sacrificiais, estas figuras esteticizadas nos lançam de frente à uma experiência corporal - tão primitiva e tão atual -, atestando uma contemporaneidade eternamente presente: estamos sempre dentro de um tempo sem tempo e com todo o tempo do mundo tentando descobrir nossa subjetividade. As figuras de Gal Oppido são vísceras da alma, são cicatrizes assépticas, são atos ritualísticos dessacralizados, são escatologias do sublime, são reparações das perdas simulando o finito que se aproxima decididamente. São decisões.

Gal Oppido mescla procedimentos e conteúdos, sugerindo, através de sua intensa operação poética, um trânsito promíscuo entre o projeto, o desenho, os objetos, as pequenas esculturas feitas de prata, a conquista das pessoas e suas histórias, o texto, o ato fotográfico, a montagem de cena, enfim, agenciando um conjunto de atitudes geradoras das imagens. Bricolagens vão se sobrepondo, camada sobre camada - e é deste contrabando de atitudes que as imagens dos corpos vão revelando uma potência de vida e de morte.

A pele na prata na pele. A prata na pele na prata.


a prata deposita, oxida, revela as fotografias laminadas
espada de prata que cinde e corta fatiando a pele
na prata, o design de gotas solidificadas que aderem ao terreno poroso da pele
da prata, objetos conjugam com as partes do corpo outras protuberâncias, agora naturais
a pele, película que envolve e embriaga os sentidos
aparência superficial
na pele, as história pessoais são escritas, cavoucadas, gravadas feito estampas
da pele, a luz modela no corpo uma topografia afetiva


A pele, embalagem de nossas substâncias impalpáveis – os sonhos, os desejos, as emoções, os pensamentos - se abrem em passagens secretas. Os buracos ocos de nossos corpos são como ralos, bueiros, regiões ocultas, fraturadas e expostas.

Estas imagens, compostas por Gal Oppido, exibem um despudoramento, ou quem sabe, um despojamento dos segredos sob as roupas usuais. Mas a aparência da pele parece ainda vestir os corpos, como se estes não estivessem despidos. E apesar de serem recortes, pedaços, fragmentos de corpos por inteiro, um desejo de transbordamento e abundância dos sentidos não desiste de pedir o poder de ser.

Corpos vestidos, revestidos de adereços e próteses. Constatando que prótese é um dispositivo implantado no corpo para suprir a falta de um órgão ausente ou para restaurar uma função comprometida; visando suprir, corrigir ou aumentar uma função natural; e adereço é peça ou objeto, de valor ou não, usada como adorno, ornamento, enfeite, apego ou adesão a uma idéia (3), as imagens enfatizam os excessos de sentido, em todos os sentidos.

E depois disto tudo, ainda podemos nos reconhecer no anel de pedra no dedo, no relógio de metal no pulso, no colar de ouro no pescoço, na espinha de pus nas costas, no vinco emotivo da testa, na cicatriz de plástico na virilha, na lente de vidro dos óculos, na amônia no cabelo e tantos outros inumeráveis ornamentos e aparelhos, acessórios e suturas que fazem parte de nossas vidas. Estendido na pele de nossos corpos, a substância e a materialidade do mundo nos impregna em entrelaçamentos tecnologicamente ancestrais.

A exploração da gráfica do corpo atesta, afirmativamente, a nossa natureza artificial. Parece ser um dissecamento limpo, sem suores, sem ruídos. Parece que ali nada é acidental. E é da convivência simbiótica do sofrimento, da dor, da tortura com o prazer dos sentidos que as imagens inventadas por Gal Oppido suscitam uma espécie de orfandade, explicitando a razão insana de sermos humanidade.

Edith Derdyk
março de 2003

(1) citação de uma expressão cunhada por Baruch Spinoza,, retomada por Gilles Deleuze e citada no livro “O corpo como objeto de arte” de Henri-Pierre Jeudy. Estação Liberdade. SP. 2002, pg 109
(2) expressão extraída do livro “Ä negação da morte”de Ernest Becker
(3) definições consultadas no Dicionário Houaiss de Lingua Portuguesa. Editora Objetiva. RJ. 2001




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